
OMAYRA SÁNCHEZ
"Sabe -me dijo-, ella nunca paró de cantar mientras estuvo con vida".
OMAYRA
bajo maíz, basura, cuchillo solar, viento, lluvia y sueño
.
Que o amor é de morte não é mistério, mas a minha morte
mais espetacular foi com uma garota
sobre a qual um terremoto desabou feito um eco
para dentro da noção mais elementar
da Humanidade, e eu assopro-te o nome dela: Omayra
Sánchez, colombiana garota que sob suplício
de terra de chuva de cinzas e tráficos de influências
dizia estar atrasada para ir à escola da aldeia.
Saiu na foto
só a metade dela, semi-encerrada na terra, toda solstício
de verão, o rosto suave, repito-lhes o nome: Omayra.
.
Evocativa é a terra correndo sem rumo, ávida
de casas, porcos e gente, e lá estava ela
igual a uma veia no caminho,
not as an umperfect actress on the stage *,
pegando borboletras para entrar cada vez mais na vida
que lhe fugia literalmente sob os pés, dia após dia
grávida de lama, suave rosto voltado para onde
em certas tribos ou civilizações se volta o rosto dos mortos.
.
Mas para roer poços de júbilo antecipado, e por isso mesmo
restrito às falhas naturais e inaturais
do Homem, seria preciso escapar
de que invocações, senhor voluntário ?
Moer os rostos à síndrome
seria esperar em vão pela parcela frontal de uma humanidade
já sem nova construção, señor administrador ?
Em verdade, vos dê em cheio que o estado é para o homem,
e não que o homem é para o estado, e faço vosso
o ícone Omayra.
.
Mas de que rumo, de qual fartura subjacente se fala
quando se fala em reunir o corpo em cólera do vulcão
e insuflá-lo mais a leste ou a oeste, se não mais ao norte
ou para lá de onde o sul se ambivale, sob a sintonia
de uma poesia cheia de mossas ?
.
A abstração de Omayra contrastou
com os incapazes de se desonerarem
da razão, da raiz de toda fala
já então prostrada, os ossos
numa armadilha vulcânica,
eles num balcão de negrócios, o solo dela
de criança sendo fragmentado
à medida que as noites fugiam
e os dias desertavam, mas
a abstração da pequena colombiana
que um tremor de terra apalpou
não durou apenas um
dia: enterrada até o pescoço, dizia
que precisava estar na escola logo na manhã
seguinte, banhada em suor
de maíz, llena de cenizas y murciélagos
aquela sobre a qual penso ouvir
a terra esvair-se recriando
sistemas atonais, párpados angelicales.
.
Mesmo quando a esperança de todos fugia, lá estava ela
sorrindo besouros, nunca à espera de tratores
senão de sus amigos y de su abuela,
guardada pelo que a ladeira oferecia, a mão
direita dentro de todas as mãos esquerdas
e de outras, ambidestra, ia fundindo
pernas e peitos, catracas e lagartas de tratores
trazendo consigo o que se cria salvação
para Omayra,
resguardando os nós do ínvio, fúrculas e arras
entre ilhotas de imprudências. E de toda parte vieram
discursos & moedas pretendendo lavar o fumo do vulcão
sob o qual uma garota já sem nome nem pátria,
porque maior do que o nome a pátria e o mundo,
articulava uma canção e lhes emprestava
algo (alguém trouxe sopa, mas como servir-se
sob tal flutusituação ?).
.
De algum lugar veio a sombra
ao terreno íngreme, e nenhuma tecnologia cooptou exata-
mente o sorriso da garota, a lucidez cruel de tressuar
sépalas, a insônia terrível de sua lucidez.
De algum lugar veio a sombra
abotoando suavemente as palavras aprendidas
numa outra escala, e já vos aplico nas veias
o nome-sedativo, a pílula conceptiva Omayra
Sanchez -capaz de roer síndromes sem saber
com quanta abstinência medir o mundo, sem saber
que é comum dar-se à mão pública, com o fim de vetar
o que houver de menos valia, cumprindo-se
insustentável como uma eterna simulação
de vácuo, mas
no idioma familiar, às vezes,
um objeto em questão é só um amém, um fósforo
pinçado à matemática e à psicopatologia
do açúcar regrado, embora
terremortos e maremortos não esperem para cobrar
dos iludidos cada gota
sem historiografia, porque sem endereço
o erro se ampli-
fica, virtual, mente
não se desmente
como nos tempos em que o futuro era peça de roupa.
.
Hoje, continuamos hirtos, estando
em que a luz não se a vê por trás, em que de algum lugar
veio sobre nós a sombra de Omayra.
***
DMC
Foto: Frank Fournier.
Verso: Shakespeare. Sonnet 23 (as an imperfect actor on the stage)


1 Comments:
Omayra,
Você está entre nós. A sua solidão, a sua espera, a sua vida têm um grande significado.
Mistérios não são para serem comentados. Eles têm motivos.
Deus abençõe você.
Um beijo. Linda.
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