03 Março 2006







OMAYRA SÁNCHEZ


"Sabe -me dijo-, ella nunca paró de cantar mientras estuvo con vida".


Há 21 anos devo a Omayra um poema, talvez mais do que me é possível. E se você pensar em Torquemada ou nas súplicas de gregos diante do oráculo de Delfos, na carnificina da Primeira Guerra e nos combates travados pelos mongóis quanto pelos Cruzados, nas suicidades e nas monstróples... se você pensar na tortura chinesa com água, na ciclotimia grassando cada vez mais (und es werden immer mehr), no olhar da libélula no teu ombro, nos caminhos de todas as criaturas vencidas em seu tempo de encantamento, saiba que ela, OMAYRA, foi mais longe ao resistir 59 horas, presa entre escombros, cantando e dizendo que precisava ir à Escola. Omayra Sánchez, colombiana garota de 12 anos, sob o vulcão Nevado del Ruiz, em Armero, no dia 14.11.1985. Junto com ela, mais 25 mil pessoas perderam a vida.

.

OMAYRA

bajo maíz, basura, cuchillo solar, viento, lluvia y sueño

.

Que o amor é de morte não é mistério, mas a minha morte

mais espetacular foi com uma garota

sobre a qual um terremoto desabou feito um eco

para dentro da noção mais elementar

da Humanidade, e eu assopro-te o nome dela: Omayra

Sánchez, colombiana garota que sob suplício

de terra de chuva de cinzas e tráficos de influências

dizia estar atrasada para ir à escola da aldeia.

Saiu na foto

só a metade dela, semi-encerrada na terra, toda solstício

de verão, o rosto suave, repito-lhes o nome: Omayra.

.

Evocativa é a terra correndo sem rumo, ávida

de casas, porcos e gente, e lá estava ela

igual a uma veia no caminho,

not as an umperfect actress on the stage *,

pegando borboletras para entrar cada vez mais na vida

que lhe fugia literalmente sob os pés, dia após dia

grávida de lama, suave rosto voltado para onde

em certas tribos ou civilizações se volta o rosto dos mortos.

.

Mas para roer poços de júbilo antecipado, e por isso mesmo

restrito às falhas naturais e inaturais

do Homem, seria preciso escapar

de que invocações, senhor voluntário ?

Moer os rostos à síndrome

seria esperar em vão pela parcela frontal de uma humanidade

já sem nova construção, señor administrador ?

Em verdade, vos dê em cheio que o estado é para o homem,

e não que o homem é para o estado, e faço vosso

o ícone Omayra.

.

Mas de que rumo, de qual fartura subjacente se fala

quando se fala em reunir o corpo em cólera do vulcão

e insuflá-lo mais a leste ou a oeste, se não mais ao norte

ou para lá de onde o sul se ambivale, sob a sintonia

de uma poesia cheia de mossas ?

.

A abstração de Omayra contrastou

com os incapazes de se desonerarem

da razão, da raiz de toda fala

já então prostrada, os ossos

numa armadilha vulcânica,

eles num balcão de negrócios, o solo dela

de criança sendo fragmentado

à medida que as noites fugiam

e os dias desertavam, mas

a abstração da pequena colombiana

que um tremor de terra apalpou

não durou apenas um

dia: enterrada até o pescoço, dizia

que precisava estar na escola logo na manhã

seguinte, banhada em suor

de maíz, llena de cenizas y murciélagos

aquela sobre a qual penso ouvir

a terra esvair-se recriando

sistemas atonais, párpados angelicales.

.

Mesmo quando a esperança de todos fugia, lá estava ela

sorrindo besouros, nunca à espera de tratores

senão de sus amigos y de su abuela,

guardada pelo que a ladeira oferecia, a mão

direita dentro de todas as mãos esquerdas

e de outras, ambidestra, ia fundindo

pernas e peitos, catracas e lagartas de tratores

trazendo consigo o que se cria salvação

para Omayra,

resguardando os nós do ínvio, fúrculas e arras

entre ilhotas de imprudências. E de toda parte vieram

discursos & moedas pretendendo lavar o fumo do vulcão

sob o qual uma garota já sem nome nem pátria,

porque maior do que o nome a pátria e o mundo,

articulava uma canção e lhes emprestava

algo (alguém trouxe sopa, mas como servir-se

sob tal flutusituação ?).

.

De algum lugar veio a sombra

ao terreno íngreme, e nenhuma tecnologia cooptou exata-

mente o sorriso da garota, a lucidez cruel de tressuar

sépalas, a insônia terrível de sua lucidez.

De algum lugar veio a sombra

abotoando suavemente as palavras aprendidas

numa outra escala, e já vos aplico nas veias

o nome-sedativo, a pílula conceptiva Omayra

Sanchez -capaz de roer síndromes sem saber

com quanta abstinência medir o mundo, sem saber

que é comum dar-se à mão pública, com o fim de vetar

o que houver de menos valia, cumprindo-se

insustentável como uma eterna simulação

de vácuo, mas

no idioma familiar, às vezes,

um objeto em questão é só um amém, um fósforo

pinçado à matemática e à psicopatologia

do açúcar regrado, embora

terremortos e maremortos não esperem para cobrar

dos iludidos cada gota

sem historiografia, porque sem endereço

o erro se ampli-

fica, virtual, mente

não se desmente

como nos tempos em que o futuro era peça de roupa.

.

Hoje, continuamos hirtos, estando

em que a luz não se a vê por trás, em que de algum lugar

veio sobre nós a sombra de Omayra.



***

DMC

Foto: Frank Fournier.

Verso: Shakespeare. Sonnet 23 (as an imperfect actor on the stage)

MAIS

1 Comments:

Anonymous linda da rocha said...

Omayra,
Você está entre nós. A sua solidão, a sua espera, a sua vida têm um grande significado.
Mistérios não são para serem comentados. Eles têm motivos.
Deus abençõe você.
Um beijo. Linda.

07 Março, 2006  

Postar um comentário

<< Home